A trajetória política da Venezuela ao longo das últimas décadas está estreitamente entrelaçada com a riqueza derivada do seu petróleo, um recurso que moldou instituições, relações internacionais e disputas de poder interno. Desde a nacionalização dos campos petrolíferos na década de 1970 até a ascensão de líderes que fizeram do Estado centralizado o eixo da governança, a dependência da economia venezuelana sobre receitas do petróleo foi um fator constante e decisivo. Essa dinâmica complexa responsabiliza a economia por ciclos de prosperidade e colapso, influenciando diretamente a estabilidade política do país.
Ao assumir a presidência em 1999, Hugo Chávez rapidamente inseriu uma nova lógica ao uso das receitas petrolíferas, ampliando programas sociais e redes de cooperação regional que transformaram a política externa venezuelana. O Estado passou a exercer controle quase absoluto sobre a produção e distribuição do petróleo, promovendo uma política de forte intervenção estatal na economia e um discurso de soberania nacional que repercutiu por toda a América Latina. Essa estratégia, embora enraizada no desejo de autonomia, também concentrou poder e abriu espaço para complexas relações com setor público e instituições estatais.
Durante os anos de governo chavista e posteriormente sob Nicolás Maduro, a economia venezuelana viu sua estrutura produtiva se estreitar em torno da exportação de petróleo. Essa dependência crescente tornou o país extremamente vulnerável a flutuações nos preços internacionais e a decisões de atores estrangeiros. Analistas apontam que a chamada doença holandesa — em que a concentração de riqueza em um setor específico enfraquece outros segmentos da economia — agravou a falta de diversificação industrial, gerando uma fragilidade estrutural que se manifesta em crises sucessivas.
A crise política que culminou nos eventos recentes começou a ganhar contornos mais nítidos com a deterioração da produção petrolífera, que sofreu quedas contínuas por falta de investimentos, sanções internacionais e gestão deficitária. Com mais de 300 bilhões de barris de reservas estimadas, esforços para revitalizar o setor tornaram-se centrais nos debates políticos internos e nas negociações com parceiros comerciais. Especialistas alertam que a recuperação plena da produção exigiria investimentos massivos e estabilidade institucional, fatores ainda difíceis de alcançar.
No contexto internacional, a importância do petróleo venezuelano também se tornou objeto de interesse geopolítico, com implicações diretas no alinhamento e nas tensões entre potências globais. A capacidade de exportar e distribuir energia influencia decisões diplomáticas e sanções econômicas, além de moldar alianças estratégicas em diferentes regiões. Essa posição de importância energética é um ativo e um passivo simultaneamente, alimentando tanto interesse externo quanto vulnerabilidade política interna.
Internamente, a concentração de poder político no Estado venezuelano, sustentada em parte pelo controle do setor petrolífero, alterou profundamente as dinâmicas de governança. A dependência de receitas provindas de um único setor e a centralização administrativa geraram dificuldades para construir mecanismos robustos de freios e contrapesos. Com instituições fragilizadas, a política passou a se apoiar mais fortemente no aparato estatal do que no consenso social, dificultando transições pacíficas e negociações internas.
Os eventos recentes, marcados por intervenções estrangeiras e disputas sobre a gestão dos recursos energéticos, trouxeram à tona o papel que o petróleo desempenha no futuro imediato do país. As decisões sobre quem controla a produção, como são negociadas as exportações e sob quais termos entram investimentos externos ganharam protagonismo nas discussões sobre uma possível saída para a prolongada crise econômica e política. A necessidade de reconstruir confiança institucional é vista por muitos como condição essencial para qualquer recuperação sustentável.
Em síntese, a intersecção entre riqueza energética e poder político na Venezuela revela um cenário de desafios profundos e legados históricos complexos. A trajetória recente mostra que o petróleo foi mais que uma fonte de renda — tornou-se um elemento estruturante da política nacional, das relações internacionais e das opções estratégicas disponíveis aos líderes do país. Enquanto o futuro permanece incerto, a forma como as autoridades venezuelanas e atores externos lidarão com esse legado poderá definir não apenas a estabilidade econômica, mas também a direção política de uma nação que carrega nos hidrocarbonetos uma história de oportunidades e tensões.
Autor: Lilly Jhons Borges
