O Dr. Vinicius Rodrigues aponta uma contradição que ainda aparece nos serviços de imagem: mulheres na faixa etária de maior risco para o câncer de mama chegam para fazer a primeira mamografia da vida depois dos 60 anos. O rastreamento é recomendado justamente nessa fase, mas, por diferentes motivos, parte da população feminina nunca passou pelo exame. Uma situação anonimizada ajuda a mostrar como esse primeiro contato acontece e por que nunca é tarde para começar.
Uma paciente que sempre adiou o exame
Uma mulher de 63 anos, moradora de uma cidade do interior, nunca havia feito mamografia. Durante décadas, dedicou-se ao trabalho e ao cuidado dos filhos e, mais tarde, dos netos e da mãe idosa. Sem sintomas e sem casos de câncer na família, acreditava não ter motivo para se preocupar.
O pedido surgiu em uma consulta de rotina para controle da pressão arterial, quando a enfermeira da unidade básica perguntou se ela já havia feito o exame. A paciente admitiu também o receio da dor e a vergonha de expor o corpo, sentimentos que vinham adiando a decisão havia anos.
Por que o exame costuma ser adiado
O caso reúne motivos frequentes. A sobrecarga com o cuidado de outras pessoas leva muitas mulheres a colocar a própria saúde em segundo plano. A ausência de sintomas e de histórico familiar reforça a falsa sensação de que o exame não é necessário.
O medo da dor, o pudor e a dificuldade de acesso completam o quadro, sobretudo em cidades menores, onde o serviço de imagem pode ficar distante. Segundo Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, a abordagem ativa da equipe de saúde, aproveitando consultas por outros motivos, é uma das formas mais eficazes de alcançar mulheres que nunca procurariam o exame por conta própria.
Como é a primeira avaliação
Sem mamografias anteriores, o radiologista não tem como comparar as imagens com exames passados, recurso que ajuda a distinguir alterações estáveis de mudanças recentes. Por isso, a convocação para imagens complementares é um pouco mais frequente no primeiro exame do que nos seguintes.
No caso descrito, a paciente foi orientada sobre essa possibilidade antes do exame. A mamografia mostrou mamas predominantemente gordurosas, padrão comum após a menopausa e favorável à leitura, além de calcificações vasculares e benignas típicas da idade. O laudo foi classificado como benigno, e o resultado foi entregue à unidade básica, que registrou a data prevista para o próximo exame.
O primeiro exame passa a ser referência
O resultado normal não encerra o cuidado. A primeira mamografia passa a servir de base para comparação nos exames seguintes, o que torna as próximas leituras mais precisas e reduz convocações desnecessárias.
A paciente recebeu a orientação de repetir o exame a cada dois anos, como prevê o rastreamento no SUS para mulheres de 50 a 74 anos. Na avaliação de Vinicius Rodrigues, guardar o laudo e as imagens e levá-los a cada nova mamografia é uma medida simples que aumenta a qualidade do acompanhamento.
Nunca é tarde para começar
O caso mostra que o rastreamento ainda traz benefício para mulheres que começam tarde, desde que estejam com boa saúde geral. Entre os 60 e os 74 anos, a incidência de câncer de mama é elevada, e a mamografia tem bom desempenho em mamas mais gordurosas.
A experiência também revelou o papel do acolhimento. A paciente relatou que o desconforto foi menor do que imaginava e que a explicação prévia reduziu o medo. Conforme destaca Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, a primeira mamografia pode ser a mais difícil de fazer, e a forma como a mulher é recebida influencia diretamente a decisão de manter o rastreamento nos anos seguintes.
